Falta enxergar com o coração. Escutar com o coração. Sentir com o coração. Pensar com ele. Tem coisas que as palavras não conseguem alcançar. Se manifestam na forma de um sorriso, de um abraço, de um momento em que carinho se faz sentir. Essas coisas, tão intensas e tão sutis ao mesmo tempo, são as grandes responsáveis por revoluções, daquelas mais essenciais: que começam de dentro pra fora – e assim se fazem verdadeiras. Em tempos onde o que menos temos é tempo, esse movimento passa despercebido e, quando vemos, a gente nem parou pra pensar na nossa balança de equilíbrio entre razão – tão estimulada na correria- e emoção – aquela partezinha de nós que envolve o sentir.

Círculos de Afeto, de Rosieli Leal

Rosieli Leal tem dedicado parte do seu tempo justamente pra isso: pra tocar o coração de outras pessoas, através do engajamento delas com causas positivas. A gente explica: ela é a criadora do Círculo de Afeto. Trata-se de “uma ideia que surgiu do meu desejo de ver as pessoas engajadas em torno de causas positivas”, ela conta, “Mas principalmente de compartilhar afeto e praticar empatia”. Esse primeiro Círculo, que vai inaugurar o projeto, vai ser com crianças de 6 a 10 anos, moradoras do Complexo do Alemão, que foram reunidas através de diferentes grupos e coletivos que trabalham na área. “Eu percebo que as pessoas estão cada vez mais agressivas, elas não praticam empatia e dentro do Complexo especificamente, as crianças vivem em uma zona de risco, entre conflitos e tiroteios e muitas vezes elas deixam de ir na escola, de brincar na rua e por aí vai por conta da insegurança e da violência”, ela explica.

Círculos de Afeto, de Rosieli Leal

Depois de muito bate papo com moradores e lideranças locais, ficou claro que todas essas pessoas, crianças e adultos, expostas a situações tão extremas todos os dias não têm acompanhamento psicológico nenhum. “A gente quer, através dos Círculos, ajudar as pessoas a crescerem emocionalmente, trabalhar a inteligência e a saúde emocional delas”. Como? Através da troca de bons sentimentos, de resgate de valores e registros na memória de momentos bons e saudáveis – tudo tão básico e tão profundo ao mesmo tempo. A metodologia, que está em constante criação e envolve uma galera de peso da área de humanas cheia de amor pra compartilhar, passa por dinâmicas como a “Passe um abraço adiante” e a “Olhe pro céu e sonhe”. No final de cada Círculo, cada participante vai ganhar uma missão para cumprir, sempre relacionado ao amor e ao afeto. Como por exemplo, as crianças do Alemão terão que ler um verso de uma poesia para um avô ou uma avó ou algum idoso com quem elas tenham contato. “As missões são sempre focadas em passar uma atitude positiva adiante e afetar alguém com afeto”, Rosieli resume. Coisa conatagiante, mesmo. Todos os voluntários sempre são estimulados a levar uma camiseta branca que vai ser desenhada e enfeitada pelas crianças que participam do Círculo: explosão de afeto e gratidão! Essa, inclusive, já virou marca registrada do Círculos de Afeto!

Círculos de Afeto, de Rosieli Leal

Todo esse projeto bonito e importante nasceu da vontade de Rosieli de fazer acontecer a mudança em vez de só criticar e reclamar da vida. E dá pra entender bem porque a coisa faz tanto sentido. Quando pedi pra ela se descrever, foi assim que ela falou: “Paraense, criada na base do açaí com farinha. Radicada no Rio, com pouco dinheiro no bolso e uma cabeça cheia de cachos e sonhos. Formada em Serviço Social, na Universidade Federal do Pará, com pós doutorado em dançar forró e carimbó, até o sol raiar. Do tipo muito interessada por gente de A a Z e viciada em ler comentários de pessoas desconhecidas nas redes sociais”. Quando pequena, acompanhava sua avó em eventos do grupo de dança que ela participava e foi daí que a paixão pelo voluntariado se manifestou. Quando chegou no Rio, conheceu o Complexo do Alemão e não demorou pra se envolver com vários projetos que já rolavam por ali. “Conheci líderes de origem popular que com muito pouco conseguem olhar o mundo além do umbigo, ampliei e iluminei o meu olhar sobre a favela e quem vem dela”, ela diz. Foi dessa conexão que vai além do físico que ela resolveu criar o projeto Círculos de Afeto para ser parceira deles e de outros que “Acreditam no ser humano e lutam por um mundo menos desigual, focando em uma questão que eu considero fundamental: a saúde mental”, ela conta.

Círculos de Afeto, de Rosieli Leal

A ideia é que os Círculos se espalhem Brasil afora, contagiando todos que passarem por eles. “Eles podem ser feitos em escolas, em asilos, dentro de empresas, o objetivo é mostrar essa como uma forma de realmente estimular as pessoas a pararem a correria do dia-a-dia e trocarem afeto”, ela diz.  “Eu não quero sonhar sozinha, pra valer a pena tem que tocar o coração de outras pessoas”. Até agora, Rosieli conseguiu mobilizar 50 pessoas que  se tornaram voluntárias. “No meio desse bando de gente boa, tem um monte que nem me conhece pessoalmente, mas abraçou uma causa positiva”, ela reflete, “É isso: envolver, fazer um mundo melhor juntos e misturados”. Porque é só assim que a gente consegue, de verdade, fazer o coração falar, ouvir, sentir e ser verdadeiro. Do jeitinho que tem que ser.

Círculos de Afeto, de Rosieli Leal

 

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