Dei um tropeção numa falha da pedra portuguesa, e lá se foi a tira da sandália. Fiz sinal para um táxi. Parou logo o carro amarelo, respingando uma água suja na minha saia.

Entrei e dei o endereço. Estava perto de casa, mas não dava para caminhar. O motorista não reclamou.

─ Ainda bem que o senhor apareceu. É uma corrida curta, mas minha sandália arrebentou.

─ Sem problema, moça. Vamos lá.

Dei o endereço, e por ali ficaria a conversa se eu não começasse a ouvir uma lição de inglês.

─ Where is the book?

─ The book is on the table.

─ Where are the pencils?

─ The pencils are near the book.

─ Whose is the book?

Pelo retrovisor, meu olhar encontrou o do motorista, que perguntou.

─ A senhora fala inglês?

─ Falo, sim. O senhor estuda enquanto dirige?

─ É ─  confirmou o homem, sem graça.

─ Ah, mas isso é muito bom, ajuda a passar o tempo no trânsito.

─ A senhora entendeu esta última pergunta?

─ Qual?

O taxista voltou a gravação. ─  Whose is the book ?

─ De quem é o livro? ─ esclareci.

─ É isso mesmo? Tem certeza ?

─ Tenho, sim.

─ Puxa, a senhora foi a primeira passageira que me deu uma luz com esse tal de whose. Whose então é isso, “de quem”?

─ É, neste caso, é.

─ Dá pra senhora caprichar a pronúncia ?

─ W─h─ o─ s─ e ─ falei, bem explicadinho.

Ele repetiu: ─ W – h – o – s – e.

─ É isso aí ─ confirmei.

Quando vi, já tínhamos passado minha rua.

─ Peraí, moço, passamos do ponto.  O senhor não viu?

─ Ah, claro, mas a senhora pode dar uma volta na quadra pra dar tempo de acabar a lição?

 

 

Por Marilena Moraes [email protected])

Marilena Moraes  – Há muitos anos faz parte do Grupo Estilingues, sete amigos que se reúnem para escrever. Hoje suas atividades estão na área de tradução, interpretação e revisão, tendo, como hobby, a fotografia e desenhos em meio digital.

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